Uma leitura arcano-histórica da deusa mesopotâmica
Muito antes das tradições clássicas estruturarem seus panteões, a Mesopotâmia já conhecia uma força divina que unia extremos: amor e destruição, fertilidade e morte, êxtase e guerra. Essa força recebeu muitos nomes, mas ficou eternizada como Ishtar, uma das mais antigas e complexas divindades da humanidade.
A Deusa de Muitos Nomes e Muitos Véus
Ishtar surge no contexto do Império Acádio, por volta de 2334 a.C., mas sua essência transcende fronteiras e épocas. Entre os sumérios, era conhecida como Inanna; em outras regiões do Oriente Próximo, como Astarte. Cada nome revela uma face, cada culto ativa um aspecto distinto da mesma potência divina.
Associada ao planeta Vênus, estrela da manhã e da tarde, Ishtar manifesta o princípio da dualidade cósmica: o brilho que seduz e a lâmina que fere. Assim como Vênus nasce e desaparece no horizonte, Ishtar governa os ciclos de atração, perda, morte e renascimento.
Origem Divina e Arquétipo Cósmico
Os mitos divergem quanto à sua origem, o que apenas reforça sua natureza arquetípica. Em algumas tradições, Ishtar é filha do deus lunar Sin e irmã do deus solar Shamash; em outras, nasce de Anu, o céu primordial, e de Nanna, a lua. Em todas, porém, ela emerge como síntese das forças naturais.
Ishtar não é uma deusa “benévola” no sentido moral. Ela é total. Cria e destrói, protege e pune. Representa o feminino arcaico em sua plenitude: fértil, sensual, tempestuoso e indomável. Por isso, é vista como mãe dos deuses e dos humanos, senhora das bênçãos terrenas e guardiã dos pactos matrimoniais.
Amor, Guerra e Tempestade
Enquanto deusa do amor e da fertilidade, Ishtar rege a sexualidade sagrada, os ritos de união e a continuidade da vida. Seu culto não separava erotismo de espiritualidade: o prazer era um ato ritual, uma comunhão com o divino.
Mas o outro rosto da deusa é o da guerra. No campo de batalha, Ishtar caminha como uma tempestade viva, inspirando terror e coragem. Seu poder bélico se aproxima do que os gregos mais tarde atribuiriam a Ares, embora, em Ishtar, a guerra não seja apenas destruição, mas também purificação e renovação.
A Descida ao Submundo: Mistério Iniciático
Entre todos os mitos, nenhum é tão profundamente esotérico quanto a Descida de Ishtar ao Submundo. Governado por sua irmã Ereshkigal, o reino dos mortos não é apenas um lugar, mas um estado de consciência.
Para atravessar seus portões, Ishtar é obrigada a retirar, um a um, seus símbolos de poder. Nua e enfraquecida, é morta e pendurada como um cadáver. Aqui, o mito revela sua chave iniciática: a morte do ego divino.
Graças à intervenção do deus Enki, senhor da sabedoria oculta, Ishtar retorna à vida. Contudo, a lei do submundo exige substituição. O escolhido é Tammuz (Dumuzi), seu consorte, que passa a ocupar seu lugar. O ciclo se completa: morte, sacrifício, retorno e fertilidade renovada.
Esse mito ecoa em tradições posteriores, como o de Perséfone, e fundamenta os mistérios ligados às estações, à vegetação e à alma humana em processo de transformação.













